O que é o cordel? | Suas origens e trajetória pela história... | por Olliver Brasil
Olá Amigos internautas que seguem o
Blog “A Voz Grapiúna” Sou Olliver Brasil poeta cordelista a 30 anos e atendendo
ao convite para compor esta Coluna começarei fazendo uma vasta explanação sobre
essa arte milenar que é a Literatura de Cordel, arte esta que a 31 anos sigo de
perto e sou um esmerado defensor, visto que a mesma encontra-se extinta
basicamente. O trecho que segue, fora composto de anos de pesquisas e por esta
razão os créditos são variados e não sabidos. Porém com certeza servirá como
apoio para aqueles que buscam saber e conhecer um pouco mais desta cultura
popular que tanto contribuiu para o combate ao analfabetismo em nosso país. É um
tanto extenso o conteúdo mas com certeza gratificante.
Olliver Brasil - Poeta Popular e Cordelista
As maiores autoridades que se
ocupam em pesquisar o Romanceiro Popular Nordestino denominado, de uns tempos
para cá, de Literatura de Cordel, atestam que sua origem está ligada aos
trovadores medievais da Europa e ao Romanceiro Ibérico. O centro irradiador do
Trovadorismo na Península Ibérica foi a região que compreende o Norte de
Portugal e a Galiza, onde está situado o famoso centro de romarias consagrado a
Santiago de Compostela. Os trovadores produziam poemas e cantigas que eram
propagadas pelos jograis ao som de instrumentos como a flauta, a viola e o
alaúde. As composições de maior aceitação popular chegaram a ser impressas. A
própria denominação Literatura de Cordel, amplamente utilizada para designar a
poesia popular nordestina nos dias de hoje, vem de Portugal*, onde os folhetos
dos trovadores eram vendidos a cavalo no cordão. Na Espanha, dava-se o nome de
“pliegos sueltos” a este tipo de literatura.
Por influência da colonização
espanhola, esse tipo de cultura manifestou-se em diversos países da América
Latina como o México, Guatemala, Peru e Argentina. Em nenhum deles, entretanto,
teve a força e a projeção que alcançou no Nordeste do Brasil. Aqui, depois de
impressas, as histórias eram decoradas por cegos cantadores e recitadas para as
multidões nos alpendres e nas feiras sertanejas, ao som da viola ou da rabeca,
instrumento rústico ancestral do violino.
Sabe-se, de fato, que os grandes
clássicos do nosso romanceiro são oriundos de antigas estórias escritas
originalmente em prosa ou quadras em Portugal, França e Espanha. Câmara Cascudo afirma, em seu “Vaqueiros e
Cantadores”, que a “História do Imperador Carlos Magno e os Doze Pares de
França, traduzida do castelhano para o português, era o grande livro de
História para as populações do interior nordestino”. Desta obra originaram-se
folhetos como “Batalha de Oliveiros e Ferrabrás”, “Prisão de Oliveiros”, “Roldão no Leão de Ouro” e “A morte dos 12
Pares de França”. Amor de Perdição, de Camilo Castelo Branco, foi adaptado num
longo poema atribuído a João Martins de Athayde, publicado em dois volumes de
32 páginas cada um. Outra grande fonte de pesquisa e inspiração para os
cantadores e poetas populares de antigamente foi o romance “O Mártir do
Gólgota”, do escritor Espanhol Henrique Pérez Escrich, do qual já falamos em
postagem anterior. Histórias como a do célebre navegador João de Calais, de
Pierre e Magalona e do duque normando Roberto do Diabo também chegaram ao nosso
conhecimento através de versões impressas em Portugal e Espanha.
literatura de cordel portuguesa e
das cantorias de improviso franco- árabe-ibéricas, criando as manifestações do
folheto de versos nordestinos e dos repentes ...
Têm-se a errônea impressão de que
os poetas populares são pessoas semi-analfabetas e de pouca incursão pelo campo
literário. Esse equívoco foi reforçado,
de certo modo, pela figura brilhante de Antônio Gonçalves da Silva, o popular
Patativa do Assaré, um poeta roceiro, que escrevia seus poemas na linguagem
rude própria dos sertanejos. É bom que se esclareça que Patativa também compôs
sonetos na linguagem convencional e era leitor assíduo de Camões, Castro Alves,
Gonçalves Dias e outros poetas eruditos. Um analfabeto jamais teria condições
de produzir uma obra com a qualidade de seus escritos, aparentemente simples,
mas de grande profundidade filosófica. Outra questão que deve ser trazida à luz
refere-se aos poetas Leandro Gomes de Barros, Silvino Pirauá de Lima, João Martins
de Athayde, João Melchíades Ferreira, José Galdino da Silva Duda, José Camelo
de Melo e Francisco das Chagas Batista, considerados os grandes mestres da
Literatura de Cordel. Todos tinham uma razoável formação intelectual, sendo que
este último era dono de livraria e editora na capital da Paraíba. Manoel
D’Almeida Filho, Manoel Camilo dos Santos e Joaquim Batista de Sena, poetas da
segunda geração, também primavam pela correção ortográfica e eram dados a
leituras eruditas. Batista de Sena chegou a confessar ao pesquisador José Vidal
Santos, que havia lido todos os verbetes do Dicionário de Aurélio Buarque de
Hollanda, com o intuito de melhorar seu vocabulário e empregar corretamente as
palavras em seus poemas. Cantadores contemporâneos como Ivanildo Vilanova,
Geraldo Amâncio e Oliveira de Panelas possuem, igualmente, uma grande bagagem
cultural. O mesmo pode-se dizer de vários cordelistas da atualidade, dentre os
quais destacaríamos Marco Haurélio, Gonçalo Ferreira, Manoel Monteiro, Rouxinol
do Rinaré, dentre outros.
Uma prova evidente de que os
mestres da poesia popular possuíam grande intimidade com as letras está na
quantidade de folhetos e romances baseados em clássicos da literatura mundial,
como “As mil e uma noites”, “Romeu e Julieta”, “Decamerão” e, evidentemente, o
Antigo Testamento.
Mas, já que o tema central de nossa
palestra são as influências ibéricas na poesia popular nordestina, passaremos a
enumerar agora algumas obras literárias de Portugal e Espanha que serviram de
inspiração para os nossos trovadores:
O drama O RICO AVARENTO da autoria
do poeta português Bento Teixeira (Porto, 1560 – 1618) foi adaptado para
Literatura de Cordel pelo paraibano Belarmino Nunes de França.
A obra PEDRO SEM, QUE JÁ TEVE E
AGORA NÃO TEM, da autoria de Luís Antônio Bergain (natural de Havre, 1812) foi
transformado em “HISTÓRIA DE PEDRO CEM” por
Leandro Gomes de Barros e posteriormente por Apolônio Alves dos Santos.
O romance AMOR DE PERDIÇÃO, do
grande escritor português Camilo Castelo Branco (Lisboa, 1825-1890) possui
versão em cordel atribuída a João Martins de Athayde. Camilo escreveu também “A
Vida de José do Telhado”. Os poetas
populares Antônio Teodoro dos Santos e Rodolfo Coelho Cavalcante utilizaram o
personagem Zé do Telhado em folhetos de sua autoria.
O romancista espanhol Henrique
Pérez Escrich escreveu a obra O MÁRTYR DO GÓLGOTHA, da qual possuímos uma
edição de 1891, impressa em Porto e traduzida por J. Cruzeiro Seixas. Este
romance teve grande aceitação em todo o Nordeste brasileiro e gozou de grande
popularidade junto aos cantadores do passado. Era, ao lado do livro de Carlos
Magno e do Lunário Perpétuo, leitura obrigatória para os poetas que cantavam
“ciência” no passado. Serviu também de
fonte de inspiração para diversos poetas como Severino Borges da Silva, Manoel
Pereira Sobrinho, Maria Batista Neves Pimentel e Francisco das Chagas Batista,
todos paraibanos. Existem dois folhetos com o título O JUDEU ERRANTE, um de
Manoel Pereira Sobrinho, outro de Severino Borges da Silva, que são claramente
influenciados pela narrativa de “O Mártyr do Gólgotha”. Chagas Batista escreveu
a HISTÓRIA DE DIMAS, O BOM LADRÃO, que também denota influências da referida
obra. Já Maria das Neves Batista Pimentel escreveu O VIOLINO DO DIABO,
inspirado em romance do mesmo nome, da autoria do citado Pérez Escrich.
Joaquim Batista de Sena, paraibano
de Solânea, escreveu o poema AS SETE ESPADAS DE DORES DE MARIA SANTÍSSIMA
claramente inspirado no romance de Pérez Escrich, notadamente na passagem que
relata o encontro da Sagrada Família com Dimas, o bom ladrão, nos desertos das
Judeia:
A história da literatura de cordel
começa com o romanceiro do Renascimento, quando se iniciou impressão de relatos
tradicionalmente orais feitos pelos trovadores medievais, e desenvolve-se até à
Idade Contemporânea. O nome cordel está ligado à forma de comercialização
desses folhetos em Portugal, onde eram pendurados em cordões, chamados de
cordéis.[1] Inicialmente, eles também continham peças de teatro, como as de
autoria de Gil Vicente (1465-1536). Foram os portugueses que introduziram o
cordel no Brasil desde o início da colonização.
Evolução no Brasil
Na segunda metade do século XIX
começaram as impressões de folhetos brasileiros, com suas características
próprias. Os temas incluem fatos do cotidiano, episódios históricos, lendas ,
temas religiosos, entre muitos outros. As façanhas do cangaceiro Lampião
(Virgulino Ferreira da Silva, 1900-1938) e o suicídio do presidente Getúlio
Vargas (1883-1954) são alguns dos assuntos de cordéis que tiveram maior tiragem
no passado. Não há limite para a criação de temas dos folhetos. Praticamente
todo e qualquer assunto pode virar cordel nas mãos de um poeta competente.
No Brasil, a literatura de cordel é
produção típica do Nordeste, sobretudo nos estados de Pernambuco, da Paraíba,
do Rio Grande do Norte e do Ceará. Costumava ser vendida em mercados e feiras
pelos próprios autores. Hoje também se faz presente em outros Estados, como Rio
de Janeiro, Minas Gerais e São Paulo. O cordel hoje é vendido em feiras
culturais, casas de cultura, livrarias e nas apresentações dos cordelistas.
O grande mestre de Pombal, Leandro
Gomes de Barros, que nos emprestou régua e compasso para a produção da
literatura de cordel, foi de extrema sinceridade quando afirmou na peleja de
Riachão com o Diabo, escrita e editada em 1899:
"Esta peleja que fiz
não foi por mim inventada,
um velho daquela época
a tem ainda gravada
minhas aqui são as rimas
exceto elas, mais nada."
Oriunda de Portugal, a literatura
de cordel chegou no balaio e no coração dos nossos colonizadores, instalando-se
na Bahia e mais precisamente em Salvador. Dali se irradiou para os demais
estados do Nordeste. A pergunta que mais inquieta e intriga os nossos
pesquisadores é "Por que exatamente no nordeste?". A resposta não
está distante do raciocínio livre nem dos domínios da razão. A primeira capital
da nação foi Salvador, ponto de convergência natural de todas as culturas,
permanecendo assim até 1763, quando foi transferida para o Rio de Janeiro.
Na indagação dos pesquisadores no
entanto há lógica, porque os poetas de bancada ou de gabinete, como ficaram
conhecidos os autores da literatura de cordel, demoraram a emergir do seio bom
da terra natal. Mais tarde, por volta de 1750 é que apareceram os primeiros
vates da literatura de cordel oral. Engatinhando e sem nome, depois de relativo
longo período, a literatura de cordel recebeu o batismo de poesia popular.
Foram esses bardos do improviso os
precursores da literatura de cordel escrita. Os registros são muito vagos, sem
consistência confiável, de repentistas ou violeiros antes de Manoel Riachão ou
Mergulhão, mas Leandro Gomes de Barros, nascido no dia 19 de novembro de 1865,
teria escrito a peleja de Manoel Riachão com o Diabo, em fins do século
passado.
Sua afirmação, na última estrofe
desta peleja (ver em detalhe) é um rico documento, pois evidencia a não
contemporaneidade do Riachão com o rei dos autores da literatura de cordel. Ele
nos dá um amplo sentido de longa distância ao afirmar: "Um velho daquela
época a tem ainda gravada"[2].
Os poetas Leandro Gomes de Barros
(1865-1918) e João Martins de Athayde (1880-1959) estão entre os principais
autores do passado.[3]
Carlos Drummond de Andrade,
reconhecido como um dos maiores poetas brasileiros do século XX, assim definiu,
certa feita, a literatura de cordel: "A poesia de cordel é uma das
manifestações mais puras do espírito inventivo, do senso de humor e da capacidade
crítica do povo brasileiro, em suas camadas modestas do interior. O poeta
cordelista exprime com felicidade aquilo que seus companheiros de vida e de
classe econômica sentem realmente. A espontaneidade e graça dessas criações
fazem com que o leitor urbano, mais sofisticado, lhes dedique interesse,
despertando ainda a pesquisa e análise de eruditos universitários. É esta,
pois, uma poesia de confraternização social que alcança uma grande área de
sensibilidade".[4]
A literatura de cordel apresenta
vários aspectos interessantes e dignos de destaque:
As suas gravuras, chamadas
xilogravuras, representam um importante espólio do imaginário popular;
Pelo fato de funcionar como
divulgadora da arte do cotidiano, das tradições populares e dos autores locais
(lembre-se a vitalidade deste gênero ainda no nordeste do Brasil), a literatura
de cordel é de inestimável importância na manutenção das identidades locais e
das tradições literárias regionais, contribuindo para a perpetuação do folclore
brasileiro;
Pelo fato de poderem ser lidas em
sessões públicas e de atingirem um número elevado de exemplares distribuídos,
ajudam na disseminação de hábitos de leitura e lutam contra o analfabetismo;
A tipologia de assuntos que cobrem,
crítica social e política e textos de opinião, elevam a literatura de cordel ao
estandarte de obras de teor didático e educativo.
Narrativa
Os textos considerados romances na
literatura de cordel possuem alguns traços em comum quanto à sua narrativa. Os
recursos narrativos mais utilizados nesses cordéis são as descrições dos
personagens em cena e os monólogos com queixas, súplicas, rogos e preces por
parte do protagonista.
São histórias que têm como ponto
central uma problemática a ser resolvida através de inteligência e astúcia para
atingir um objetivo. No romance romântico, a problemática envolve elementos
relacionados ao imaginário europeu – duques, condes, castelos –, apropriados e
adaptados pela literatura oral brasileira.[5]
O herói sofrerá, vivendo em
desgraça e martírio, sempre fiel ao seu amor ou às suas convicções, mesmo com
as intempéries. É comum a intriga envolver jovens que enfrentam problemas na
escolha de seus companheiros, em relações familiares extremamente
hierarquizadas. Objeção, proibição do namoro, noivados arranjados são algumas
das dificuldades que impedem o jovem casal apaixonado de ficar junto ao longo
do romance.[6]
Ao fim de tudo, o herói será
exaltado e os opositores humilhados. Se assim não for, haverá outro meio de
equilibrar a situação, que durante quase toda a narrativa permaneceu
desfavorável ao protagonista.[7]
Poética
Trabalho de alunos, praça em
Cerqueira César
Quadra
Estrofe de quatro versos. A quadra
iniciou o cordel, mas hoje não é mais utilizada pelos cordelistas. Porém as
estrofes de quatro versos ainda são muito utilizadas em outros estilos de
poesia sertaneja, como a matuta, a caipira, a embolada, entre outros.
A quadra é mais usada com sete
sílabas. Obrigatoriamente tem que haver rima em dois versos (linhas). Cada
poeta tem seu estilo. Um usa rimar a segunda com a quarta. Exemplo:
Minha terra tem palmeiras
Onde canta o sabiá (2)
As aves que aqui gorjeiam
Não gorjeiam como lá (4).
Outro prefere rimar todas as
linhas, alternando ou saltando. Pode ser a primeira com a terceira e a segunda
com a quarta, ou a primeira com a quarta e a segunda com a terceira. Vejamos
estes exemplos de Zé da Luz:
E nesta constante lida
Na luta de vida e morte
O sertão é a própria vida
Do sertanejo do Norte
Três muié, três irimã,
Três cachorra da mulesta
Eu vi nun dia de festa
No lugar Puxinanã.
Sextilha
É a mais conhecida. Estrofe ou
estância de seis versos. Estrofe de seis versos de sete sílabas, com o segundo,
o quarto e o sexto rimados; verso de seis pés, colcheia, repente. Estilo muito
usado nas cantorias, onde os cantadores fazem alusão a qualquer tema ou evento
e usando o ritmo de baião. Exemplo:
Quem inventou esse "S"
Com que se escreve saudade
Foi o mesmo que inventou
O "F" da falsidade
E o mesmo que fez o "I"
Da minha infelicidade
Septilha
Estrofe (rara) de sete versos;
setena (de sete em sete). Estilo muito usado por Zé Limeira, o Poeta do
Absurdo.
Eu me chamo Zé Limeira
Da Paraiba falada
Cantando nas escrituras
Saudando o pai da coaiada
A lua branca alumia
Jesus, Jose e Maria
Três anjos na farinhada.
Napoleão era um
Bom capitão de navio
Sofria de tosse braba
No tempo que era sadio,
Foi poeta e demagogo
Numa coivara de fogo
Morreu tremendo de frio.
Na septilha usa-se o estilo de
rimar os segundo, quarto e sétimo versos e o quinto com o sexto, podendo deixar
livres o primeiro e o terceiro.
Oitava
Estrofe ou estância (grupo de
versos que apresentam, comumente, sentido completo) de oito versos: oito-pés-em-quadrão.
Oitavas-a-quadrão. Como o nome já sugere, a oitava é composta de oito versos
(duas quadras), com sete sílabas. A rima na oitava difere das outras. O poeta
usa rimar a primeira com a segunda e terceira, a quarta com a quinta e oitava e
a sexta com a sétima.
Quadrão
Oitava na poesia popular, cantada,
na qual os três primeiros versos rimam entre si, o quarto com o oitavo, e o
quinto, o sexto e o sétimo também entre si.
Todas as estrofes são encerradas
com o verso: Nos oito pés a quadrão. Vejamos versos de uma contaria entre José
Gonçalves e Zé Limeira: - (AAABBCCB)
Gonçalves:
Eu canto com Zé Limeira
Rei dos vates do Teixeira
Nesta noite prazenteira
Da lua sob o clarão
Sentindo no coração
A alegria deste canto *
Por isso é que eu canto tanto *
NOS OITO PÉS A QUADRÃO
Limeira:
Eu sou Zé Limeira e tanto
Cantando por todo canto
Frei Damião já é santo
Dizendo a santa missão
Espinhaço e gangão
Batata de fim de rama *
Remédio de velho é cama *
NOS OITO PÉS A QUADRÃO.
Décima
Estrofe de dez versos, com dez ou
sete sílabas, cujo esquema rimático é, mais comumente, ABBAACCDDC, empregada
sobretudo na glosa dos motes, conquanto se use igualmente nas pelejas e, com
menos frequência, no corpo dos romances.
Geralmente nas pelejas é dado um
mote para que os violeiros se desdobrem sobre o mesmo. Vejamos e exemplo com
José Alves Sobrinho e Zé Limeira:
Mote:
VOCÊ HOJE ME PAGA O QUE TEM FEITO
COM OS POETAS MAIS FRACOS DO QUE
EU.
Sobrinho:
Vou lhe avisar agora Zé Limeira
<A
Dizem que quem avisa amigo é >B
Vou lhe amarrar agora a mão e o pé
>B
E lhe atirar naquela capoeira <A
Pra você não dizer tanta besteira
<A
Nesta noite em que Deus nos acolheu
>C
Você hoje se esquece que nasceu
>C
E se lembra que eu sou bom e
perfeito >D
Você hoje me paga o que tem feito
>D
Com os poetas mais fracos do que
eu. >C
Zé Limeira:
Mais de trinta da sua qualistria
Não me faz eu correr nem ter
sobrosso
Eu agarro a tacaca no pescoço
E carrego pra minha freguesia
Viva João, viva Zé, viva Maria
Viva a lua que o rato não lambeu
Viva o rato que a lua não roeu
Zé Limeira só canta desse jeito
Você hoje me paga o que tem feito
Com os poetas mais fracos do que
eu.
Martelo
Estrofe composta de decassílabos,
muito usada nos versos heroicos ou mais satíricos, nos desafios. Os martelos
mais empregados são o gabinete e o agalopado.
Martelo agalopado - Estrofe de dez
versos decassílabos, de toada violenta, improvisada pelos cantadores sertanejos
nos seus desafios.
Martelo de seis pés, galope -
Estrofe de seis versos decassilábicos. Também se diz apenas agalopado.
Galope à beira-mar
Estrofe de 10 versos
hendecassílabos (que tem 11 sílabas), com o mesmo esquema rímico da décima
clássica, e que finda com o verso "cantando galope na beira do mar"
ou variações dele. Termina, sempre, com a palavra "mar".
Às vezes, porém, o primeiro, o
segundo, o quinto e o sexto versos da estrofe são heptassílabos, e o refrão é
"meu galope à beira-mar". É considerado o mais difícil gênero da
cantoria nordestina, obrigatoriamente tônicas as segunda, quinta, oitava e
décima primeira sílabas.
Sobrinho:
Provo que eu sou navegador
romântico
Deixando o sertão para ir ao
mirífico
Mar que tanto adoro e que é o
Pacífico
Entrando depois pelas águas do
Atlântico
E nesse passeio de rumo oceânico
Eu quero nos mares viver e sonhar
Bonitas sereias desejo pescar
Trazê-las na mão pra Raimundo Rolim
Pra mim e pra ele, pra ele e pra
mim
Cantando galope na beira do mar.
Limeira:
Eu sou Zé Limeira, caboclo do mato
Capando carneiro no cerco do bode
Não gosto de feme que vai no pagode
O gato fareja no rastro do rato
Carcaça de besta, suvaco de pato
Jumento, raposa, cancão e preá
Sertão, Pernambuco, Sergipe e Pará
Pará, Pernambuco, Sergipe e Sertão
Dom Pedro Segundo de sela e gibão
Cantando galope na beira do mar.
Redondilha
Antigamente, quadra de versos de
sete sílabas, na qual rimava o primeiro com o quarto e o segundo com o
terceiro, seguindo o esquema abba.
Hoje, verso de cinco ou de sete
sílabas, respectivamente redondilha menor e redondilha maior.
Carretilha
Literatura popular brasileira -
Décima de redondilhas menores rimadas na mesma disposição da décima clássica;
miudinha, parcela, parcela-de-dez.
Métrica e Rima
Métrica:
Arte que ensina os elementos
necessários à feitura de versos medidos. Sistema de versificação particular a
um poeta. Contagem das sílabas de um verso. Verso é a linguagem medida. Para
medir devemos ajuntar as palavras em número prefixado de pés. Chama-se pé uma
sílaba métrica. O verso português pode ter de duas a doze sílabas. Os mais
comuns são os de seis, sete, oito, dez e doze pés. Como o verso mais comum,
mais espontâneo é o de sete pés, comecemos nele a contagem métrica. Exemplo:
Minha terra tem palmeiras
Onde canta o sabiá
As aves que aqui gorjeiam
Não gorjeiam como lá.
Eis como se contam as sílabas:
Mi | nha | ter | ra |tem | pal |
mei|
Não contamos a sílaba final
"ras" porque o verso acaba no último acento tônico. O verso a quem sobra
uma sílaba final chama-se grave. Aquele a quem sobram duas sílabas finais
chama-se esdrúxulo. O terminado por palavra oxítona chama-se agudo, como o
segundo e o quarto do exemplo supra. Eis como se decompõe o segundo verso:
On | de | can | ta o | sa | bi |á|
Nesse verso "ta o" se
leem como t'o formando um pé, pela figura sinalefa (fusão) . Sabiá,
modernamente, se deve contar dissílabo, porque biá, em duas silabas, forma
hiato. Em geral devemos sempre evitar o hiato, quer intraverbal, quer interverbal.
Os autores antigos e os modernos pouco escrupulosos toleram muitos hiatos.
Sinalefa:
Figura pela qual se reúnem duas
sílabas em uma só, por elisão, crase ou sinérese.
Sinérese:
Contração de duas sílabas em uma
só, mas sem alteração de letras nem de sons, como, p. ex., em reu-nir,
pie-da-de, em vez de re-u-nir, pi-e-da-de.
As| aves | que a| qui | gor| jei |
Não | gor | jei| am | co | mo | lá
|
No caso o verso é um heptassílabo,
porque só contamos sete sílabas. Se colocarmos uma sílaba a mais ou a menos em
qualquer dos versos, fica dissonante e perde a beleza e harmonia.
Vale lembrar que quando a palavra
seguinte inicia com vogal, dependendo do caso, pode haver a junção da sílaba da
primeira com a segunda, como se faz na língua francesa. Exemplo:
Para verificar a quantidade de
silabas podemos contar nos dedos. Vejamos neste trechinho de Patativa do
Assaré:
Nes | ta | noi | te | pas | sa |
gei | ra
1 2
3 4 5
6 7
Há | coi| sa | que | mui | to | pas
| ma
1 2
3 4 5
6 7
Um mote:
Vou | fa | zer | se | re | na | ta
| na | cal | ça | da
1 2
3 4 5
6 7 8
9 10
Da | me | ni | na | que a | mei |
na | mi | nha | vi | da
1 2
3 4 5
6 7 8
9 10
Rima
Rimas consoantes:
As que se conformam inteiramente no
som desde a vogal ou ditongo do acento tônico até a última letra ou fonema.
Exemplo: fecundo e mundo; amigo e contigo; doce e fosse; pálido e válido; moita
e afoita.
Rimas toantes:
Aquelas em que só há identidade de
sons nas vogais, a começar das vogais ou ditongos que levam o acento tônico,
ou, algumas vezes, só nas vogais ou ditongos da sílaba tônica. Exemplo: fuso e
veludo; cálida e lágrima; "Sem propósito de sonho / nem de alvoradas
seguintes, / esquece teus olhos tontos / e teu coração tão triste."
Cecília Meireles, Obra Poética, p. 516.
No caso da literatura de cordel
nordestina, faz parte da tradição do gênero o uso de rimas consoantes. Se um
folheto de cordel usa rimas toantes, o conhecedor de cordel pensa logo que o
autor daquele folheto desconhece a existência destas regras. Um cordel escrito
assim pode até ser um grande poema, mas não se pode dizer que se trata de 'um
cordel autêntico'.
Xilogravura é a técnica de gravura
na qual se utiliza madeira como matriz e possibilita a reprodução da imagem
gravada sobre papel ou outro suporte adequado. É um processo muito parecido com
um carimbo.
É uma técnica em que se entalha na
madeira, com ajuda de instrumento cortante, a figura ou forma (matriz) que se
pretende imprimir. Em seguida usa-se um rolo de borracha embebida em tinta,
tocando só as partes elevadas do entalhe. O final do processo é a impressão em
alto relevo em papel ou pano especial, que fica impregnado com a tinta,
revelando a figura. Entre as suas variações do suporte pode-se gravar em
linóleo (linoleogravura) ou qualquer outra superfície plana. Além de variações
dentro da técnica, como a xilogravura de topo.
História
A xilogravura é de provável origem
chinesa, sendo conhecida desde o século VI. No ocidente, ela já se afirma
durante a Idade Média. No século XVIII duas inovações revolucionaram a
xilogravura. A chegada à Europa das gravuras japonesas a cores, que tiveram
grande influência sobre as artes do século XIX, e a técnica da gravura de topo
criada por Thomas Bewick.
No final do século XVIII Thomas
Bewick teve a idéia de usar uma madeira mais dura como matriz e marcar os
desenhos com o buril, instrumento usado para gravura em metal e que dava uma
maior definição ao traço. Dessa maneira Bewick diminuiu os custos de produção
de livros ilustrados e abriu caminho para a produção em massa de imagens
pictóricas. Mas com a invenção de processos de impressão a partir da fotografia
a xilogravura passa a ser considerada uma técnica antiquada. Atualmente ela é
mais utilizada nas artes plásticas e no artesanato.
Xilogravura popular brasileira
A xilogravura popular é uma
permanência do traço medieval da cultura portuguesa transplantada para o Brasil
e que se desenvolveu na literatura de cordel. Quase todos os xilografos
populares brasileiros, principalmente no Nordeste do país, provêm do cordel.
Entre os mais importantes presentes no acervo da Galeria Brasiliana estão
Abraão Batista, José Costa Leite, J. Borges, Amaro Francisco, José Lourenço e
Gilvan Samico.
Texto Base para o documentário : o
que é o cordel? Exibido na TV Monte Sião em Novembro de 2012.que pode ser
assistido no seguinte Canal: https://www.youtube.com/watch?v=u296Y8mNERk

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